quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Torcidas Organizadas


CENA 1 – Última rodada do Campeonato Brasileiro de 2009; Coritiba e Fluminense disputam partida de alto risco na capital paranaense. O vencedor garante sua permanência na elite do futebol brasileiro; mas, o clube carioca, “tantas vezes campeão”, pode escapar de mais um rebaixamento em sua história com um simples empate. Fim de jogo: placar igual, queda do “Coxa” e o Flu fica na primeira. Inconformados, torcedores do clube do Paraná invadem o gramado e iniciam uma violenta batalha campal. Armados de paus e pedras, agridem tudo o que encontram pela frente; a espiral de violência rompe os limites do estádio Couto Pereira e toma as ruas de Curitiba. A maioria dos invasores pertence à “torcida organizada” Império Verde.
CENA 2 – Fim da apuração das eleições para renovação da diretoria do Santos Futebol Clube em dezembro do ano passado. Antes mesmo da abertura da última urna, está clara a vitória de Luiz Álvaro, candidato da chapa de oposição, encerrando um longo período de mandatos consecutivos de Marcelo Teixeira na presidência do clube. Integrantes da Torcida Jovem, aliados do candidato da situação, também inconformados com o resultado, irrompem em violência e, por muito pouco, não destroem completamente o Salão de Mármore da Vila Belmiro e provocam uma tragédia.
CENA 3 – O Corinthians apresenta o veterano lateral-esquerdo Roberto Carlos, que chega para ajudar o clube a conquistar a Taça Libertadores da América no ano do centenário do clube. Mais de cinco mil pessoas estão no Parque São Jorge debaixo de sol inclemente para acompanhar a entrevista coletiva do jogador. A Folha de S. Paulo chama a atenção para o evento, destacando “a força das torcidas organizadas do clube, em particular a Gaviões da Fiel e a Pavilhão 9”. A propósito, Roberto Carlos entra no gramado segurando uma camisa, um boné e uma faixa da Gaviões. Ora, ele vai jogar pelo Corinthians ou na Gaviões da Fiel?
Não se trata, aqui, de analisar o aspecto psicológico que leva os integrantes das torcidas organizadas a agirem da forma que agem. Especialistas já disseram tudo que havia para dizer sobre isso. O que interessa, neste caso, é tentar entender o porquê destas organizações terem tanta influência na política interna dos clubes de futebol. Talvez, a primeira explicação resida na relação promíscua que as diretorias dos clubes mantêm com as torcidas. Elas recebem ingressos de graça, financiamento para viagens para acompanhar jogos do time em outras cidades e estados, subsídios para atividades de caráter, digamos, social, entre outras benesses. Em troca, apoio incondicional ao dirigente de turno.
Este tipo de relacionamento não encontra paralelos em outros países. Na Europa, por exemplo, as torcidas organizadas restringem sua atuação às arquibancadas, torcendo e cantando em apoio aos jogadores. São violentas? Não restam dúvidas. Têm histórico de racismo? Na Itália e Alemanha, principalmente. Mas, o que importa é saber que elas se auto-financiam; desenvolvem atividades que lhes permitam obter recursos financeiros para bancar seus custos. E se querem intervir nas disputas políticas das agremiações, seus integrantes se associam ao clube.
No Brasil, ao contrário, boa parte dos integrantes não é associada do clube de coração, mas, sim, da torcida; e, no entanto, se julgam no direito de intervir na vida política e administrativa dos clubes. E na maioria das vezes, valendo-se de expedientes espúrios: violência, chantagem, achaques e intimidações de toda ordem. Para obter recursos, as torcidas organizadas dos clubes brasileiros também comercializam um amplo mix de produtos em que vinculam sua imagem com a do próprio clube, sem pagar nenhum um centavo por isso.
Todas as vezes em que uma ou outra torcida protagoniza um ato de violência extrema, autoridades, governos e os próprios dirigentes de clubes vêm a público cobrar soluções; e a panacéia de sempre é o endurecimento da legislação. Não há a necessidade de novas leis ou aperfeiçoamento das já existentes: basta aplicá-las e aprender com os exemplos que vêm de fora.
No estádio Heysel de Bruxelas, em 29 de maio de 1985, na final da Copa da Europa, o futebol viveu uma das grandes tragédias de sua história: morreram por asfixia e esmagamento 39 torcedores (32 italianos) que se encontravam nas arquibancadas ocupadas pelos torcedores italianos, depois de uma carga de seus rivais ingleses antes de iniciar a final.
Por conta deste episódio, os clubes ingleses foram proibidos de disputar campeonatos promovidos pela UEFA por cinco anos. Neste período, as autoridades de sua Majestade, a Rainha Elizabeth II, adotaram medidas duras para coibir a violência nos estádios de futebol. Atualmente, o campeonato inglês é considerado um dos mais disputados do mundo e forte financeiramente. Os clubes voltaram às disputas européias e vem obtendo resultados consideráveis.
A Copa do Mundo de 2014 será no Brasil, antes, porém, é preciso equacionar e solucionar o problema da violência nos estádios, para que voltem a ser o que sempre foram: palco para jogadores talentosos desfilarem seu talento pelos gramados, com festas de cores e sons vinda das arquibancadas.

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