sábado, 1 de maio de 2010

Incômodo silêncio

O juiz Baltazar Garzón tornou-se conhecido no Brasil quando pediu, e a Justiça inglesa aceitou, a prisão do general Augusto Pinochet, que governou o Chile entre 1973 e 1989. Garzón pretendia julgar o velho general por crimes contra a humanidade. Seu governo foi um dos mais violentos e sangrentos entre todas as ditaduras que assombraram a América do Sul nos anos 1960 e 1970. A prisão de Pinochet em Londres constrangeu as relações entre a Inglaterra e o Chile, por conta do pedido do juiz espanhol de extraditar o ditador para a Espanha.
O assunto foi amplamente divulgado nos meios de comunicação brasileiros, mas, já se perdeu na poeira do tempo. Agora, novamente Garzón está no centro das atenções na Espanha, acusado de "abuso de poder" por Luciano Varela, juiz de instrução do Tribunal Supremo da Espanha, notadamente vinculado às Falanges franquistas. O "crime" de Garzón? Não aceitar que a Lei de Anistia e a Lei de Memória Histórica, promulgadas após o fim da ditadura, em 1977, impeçam a investigações de crimes lesa-humanidade, cometidos durante a ditadura de Francisco Franco.
A acusação é uma violenta reação da direita espanhola (que compreende, nas palavras do jornalista Alberto Dines, coordenador do Observatório da Imprensa, um pool de interesses empresariais, ideológicos e religiosos) às ações de Garzón, porque suas investigações sobre os escândalos de corrupção envolvendo o Partido Popular (PP) desmoralizam não apenas os projetos eleitorais do partido, mas também a herança reacionária firmemente encastelada na sociedade espanhola.
E por que este assunto, que divide a Espanha e agita a Europa, é solenemente ignorada pelos meios de comunicação brasileiros? Para Alberto Dines, mencionar a direita espanhola significa mencionar a Opus Dei. "E a prelazia pessoal, queridinha do Papa João Paulo II, firmemente infiltrada na mídia brasileira, sobretudo nos escalões intermediários, abomina holofotes. Ela prefere operar na sombra", explica o coordenador do Observatório da Imprensa.
Dines vai além e diz que a mídia européia e americana solidarizou-se com Garzón. Para jornais e revistas como New Yok Times, The Guardian, The Economist, Liberation e Le Monde investigar os desaparecimentos durante a Guerra Civil não é delito. Delito é perseguir um juiz que vai às últimas consequências em busca da verdade.
Verdade que incomoda e é olimpicamente "ignorada" pela mídia brasileira. Por aqui, reina incomodo silêncio.

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