Por Leandro Fortes, no Brasília Eu Vi
Seria apenas risível, não fosse, antes de tudo, muito grave, o surgimento de uma nova e alucinada versão sobre a operação da Polícia Federal, deflagrada em março de 2002, que resultou na apreensão de 1,3 milhão de reais na sede da construtora Lunus, em São Luís, no Maranhão. A empresa, de propriedade da governadora Roseana Sarney (PMDB) e do marido dela, Jorge Murad, tornou-se o epicentro de uma crise política que modificou os rumos da campanha eleitoral de 2002, justamente quando a direita brasileira parecia capaz de emplacar, finalmente, um candidato puro-sangue com real chance de chegar à Presidência da República. Na época, Roseana Sarney era do PFL, atual DEM, e resplandecia numa eficiente campanha de mídia como exemplo de mulher corajosa, determinada e, sobretudo, competente. Resguardada pelo poder do pai, o senador José Sarney (PMDB-AP), e pela aliança pefelista que sustentava o governo Fernando Henrique Cardoso, Roseana sonhou, de fato, em tornar-se a candidata da situação contra Luiz Inácio Lula da Silva.
O desejo da família Sarney de retornar ao Palácio do Planalto revelava, em primeiro plano, o absoluto descolamento da realidade de um clã provinciano e truculento, incapaz de perceber o mundo além das fronteiras do Maranhão. Por outro lado, revelava, ainda, total desconhecimento dos métodos e da sanha de seu verdadeiro adversário, o tucano José Serra, empenhado em ser candidato pelo PSDB a qualquer custo. Serra, ao contrário de Roseana, tinha montado uma máquina de moer inimigos a partir de um “núcleo de inteligência” instalado na antiga Central de Medicamentos (CEME) do Ministério da Saúde, comandada pelo delegado da PF Marcelo Itagiba, atual deputado federal pelo PSDB. Itagiba, no entanto, era apenas o ponto de contato entre Serra a direção-geral da corporação, então nas mãos de outro tucano, o delegado Agílio Monteiro Filho, que chegou a se candidatar, sem sucesso, à Câmara dos Deputados, em 2002, também pelo PSDB. Em 2007, o delegado foi nomeado ouvidor-geral adjunto do Estado de Minas Gerais, uma espécie de ombudsman paroquial, pelo governador Aécio Neves. Um prêmio de consolação, convenhamos, para lá de meia-boca.
Agílio Monteiro Filho comandou de longe uma operação montada em bases políticas, dentro do Palácio do Planalto, com o aval do presidente Fernando Henrique e de seu candidato à sucessão, José Serra. Imputar esse fato ao PT e, mais incrivelmente, a Lula, quase uma década depois do ocorrido, só se justifica pela insana caminhada de parte da mídia ao precipício, onde também se pretende jogar a memória nacional e a inteligência alheia, para ficarmos em termos brandos. O depoimento do tal sindicalista Wagner Cinchetto à revista Veja, como parte da série “grandes entrevistas de dedos-duros do mundo sindical”, tem a pretensão de transformar fatos concretos e apurados numa versão aloprada baseada, unicamente, nos valores invertidos do mundo bizarro em que se transformou boa parte da imprensa brasileira. Trata-se de caso explícito de abandono completo da regras básicas do jornalismo, mesmo a mais primária, a de pesquisar, com um google que seja, aquilo que já foi escrito a respeito.
Digo isso porque, quando da deflagração da Operação Lunus, eu era repórter do Jornal do Brasil, em Brasília, e fui destacado para descobrir os bastidores daquela sensacional ação policial que, inusitadamente, havia sido comemorada tanto pelo Palácio do Planalto como pela oposição petista. Eu tinha boas fontes na Polícia Federal, tanto em Brasília como no Maranhão, e desde as primeiras horas da notícia fui alertado de que, embora a grana dos Sarney fosse mesmo suja, a operação da PF tinha sido armada para detonar Roseana Sarney. Outro que foi avisado cedo sobre o assunto foi o próprio José Sarney. Furibundo, o chefe do clã iniciou um movimento político que resultou em uma de suas raras dissidências governistas e em um ódio paternal profundo pela figura de José Serra.
Na ponta da Operação Lunus estava o delegado Paulo Tarso de Oliveira Gomes, atual adido policial nos Estados Unidos, nomeado pelo diretor-geral da PF, delegado Luiz Fernando Corrêa, imagina-se, por bons serviços prestados à corporação. Gomes era um homem de confiança de Agílio Monteiro Filho e, portanto, do PSDB. A chance de haver alguma ligação dele com o PT ou Lula é a mesma de Marcelo Itagiba se tornar ministro da Justiça em um eventual governo Dilma Rousseff. Ou seja, zero. Jamais houve, contudo, o tal telefonema para o Palácio do Planalto feito por Gomes para avisar FHC do sucesso da empreitada. O delegado Paulo Tarso Gomes enviou, isso sim, de dentro do escritório da Lunus, um fax para o Palácio da Alvorada, à noite, onde o presidente Fernando Henrique, ansioso e de pijamas, aguardava notícias sobre a ação. O texto anunciava a missão cumprida. Foi uma matéria minha, no JB de 2 de março de 2002, que revelou a armação.
Eu soube do fax porque, à época, consegui acessar os dados da companhia telefônica do Maranhão e me deparei com o grau de amadorismo da ação. Incrivelmente, o delegado-chefe da operação, no afã de mostrar serviço, nem esperou voltar para o hotel em São Luís para dar as boas novas a FHC: passou um fax de dentro da empresa investigada! Os números, tanto do telefone da Lunus, como do Palácio da Alvorada, foram registrados pela telefônica e, um dia depois, também foram estampados pelo Jornal do Brasil, a tempo de desmentir uma versão montada às pressas, na assessoria de imprensa da PF, que chegou a apresentar um fax falso para evitar a desmoralização da operação. Tudo isso poderia ter sido checado, sobretudo na Editora Abril, haja vista que o editor-chefe do jornal, que participou diretamente da edição das matérias, era o jornalista Augusto Nunes, atualmente, um dos colunistas da revista Veja.
Mais uma coisinha que ninguém se lembra de falar quando se trata da Operação Lunus: embora tenha sido um sucesso político para os tucanos, foi um fracasso total para a Polícia Federal. Um ano depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) arquivou, por falta de provas, o processo contra Roseana Sarney decorrente da ação da PF.
No fim das contas, o neoarrependido Wagner Cinchetto nada mais é o do que um dos cachorros loucos liberados pela mídia neste agosto eleitoral. Ao imputar a Lula e ao PT a tucaníssima Operação Lunus, o sindicalista conseguiu apenas consolidar essa impressão terrível, que cresce com a proximidade das eleições, de que os ventos da derrota não trazem, definitivamente, bons conselhos aos candidatos.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Futuro líder da oposição virá do Rio
A última pesquisa do Instituto Datafolha mostra a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, com 49% das intenções de voto. Seu principal adversário, José Serra (PSDB), está em segundo, com 29%. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Se as eleições fossem realizadas hoje, estes números dariam à candidata apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a vitória no primeiro turno.
Diferentes analistas políticos afirmam que, caso se confirme sua derrota, Serra terá o canto do cisne em sua carreira política. E mais, já se especula também quem irá liderar a oposição no Congresso Nacional. Uma avaliação ligeira cravaria no ex-governador de Minas Gerais e candidato ao Senado por aquele estado, Aécio Neves. Com uma tribuna importante a sua disposição, dizem os especialistas, ele teria condições de ser o grande líder oposicionista a um eventual mandato de Dilma Rousseff.
Aécio não é unanimidade. Pelo menos é que se depreende de algumas análises publicadas na imprensa. O ex-governador mineiro, dado o seu perfil conciliador e suas boas relações com o presidente Lula, não teria a necessária firmeza para conduzir a oposição conservadora no Parlamento. Se Aécio não serve, quem, então, há de servir? A solução, para os conservadores, pode estar no Rio de Janeiro.
Criado nas hostes brizolistas, César Maia (DEM-RJ) é mais um daqueles típicos casos em que a criatura acaba sempre se voltando contra o seu criador. Sua trajetória política teve início à sombra do caudilho gaúcho, mas, não demorou a alçar vôo próprio; nem que, para isso, fosse preciso dar uma guinada de 180º em suas concepções políticas. O social-democrata, adepto do socialismo moreno, deu lugar ao conservador mais reacionário.
César Maia é candidato ao Senado pelo estado do Rio de Janeiro. E as pesquisas o colocam em boas condições de se eleger – a mais recente, do Datafolha, lhe dá 33%, em situação de empate técnico com o senador e candidato à reeleição Marcelo Crivela.
O demo carioca, depois de três mandatos à frente da prefeitura do Rio de Janeiro, tornou-se um obcecado por pesquisas eleitorais e é dele a mais arguta análise sobre o recente levantamento feito pelo Datafolha.
Maia “joga a toalha” e, em seu ex-Blog na internet, afirma que a vantagem de Dilma Rousseff “é fato e não se pode e nem se deve contestar”. O ex-prefeito carioca admite que, neste momento, para José Serra, o mais importante é perseguir o segundo turno, hipótese que a cada dia se revela mais distante. E para isso, sugere uma aliança “não escrita” com a candidata do Partido Verde, Marina Silva. Talvez a senadora acreana, comprometida até a medula com o limitado discurso ecológico, não contasse com esta possibilidade quando decidiu lançar-se na aventura de tentar ser presidente da República.
O ex-prefeito do DEM propõe induzir o voto daqueles que não querem nem Serra e nem Dilma para Marina Silva. Em outras palavras, prega o voto útil para, em sua opinião, assegurar a realização de um segundo turno, onde o jogo é zerado e os dois mais bem votados partem em condições de igualdade. Esta manobra, embora por outros meios, já foi experimentada na eleição anterior e o resultado é bem conhecido: o então candidato Geraldo Alckmin (PSDB) conseguiu a proeza de ter, no segundo turno, menos votos do que teve no primeiro.
A análise que Cesar Maia faz dos números do Datafolha também fornece pistas de como será sua atuação no Senado Federal, caso seja eleito em outubro. Ele lamenta o fato de a equipe de José Serra não ter acompanhado mais atentamente as eleições chilenas. “Com Michele Bachelet, ex-presidenta do Chile, mais popular do que Lula, Sebastian Piñera, candidato da oposição conservadora, foi corajoso e propôs como mote, foco e slogan de campanha, a mudança”, afirma Maia.
Transpor uma realidade de um determinado local para outro, na expectativa de ver reproduzido ali os mesmo resultados, é um exercício não muito recomendável. A vitória de Sebastian Piñera foi vista com alvíssaras por muita gente da oposição ao presidente Lula, porém, as comparações não tiveram fôlego por um único motivo: a situação chilena estava dividida e fragmentada, ao passo que, no Brasil, ela só tem uma candidata.
César Maia também faz críticas veladas à estratégia adotada por José Serra. Segundo ele, ao invés de apostar no “tudo bem, mas vamos fazer um pouco mais”, o tucano deveria, a exemplo do oposicionista chileno, ter um pouco mais de coragem e insistir na mudança. Estes são pequenos, porém, consistentes sinais da atuação do futuro senador César Maia, o líder que a oposição está procurando.
Diferentes analistas políticos afirmam que, caso se confirme sua derrota, Serra terá o canto do cisne em sua carreira política. E mais, já se especula também quem irá liderar a oposição no Congresso Nacional. Uma avaliação ligeira cravaria no ex-governador de Minas Gerais e candidato ao Senado por aquele estado, Aécio Neves. Com uma tribuna importante a sua disposição, dizem os especialistas, ele teria condições de ser o grande líder oposicionista a um eventual mandato de Dilma Rousseff.
Aécio não é unanimidade. Pelo menos é que se depreende de algumas análises publicadas na imprensa. O ex-governador mineiro, dado o seu perfil conciliador e suas boas relações com o presidente Lula, não teria a necessária firmeza para conduzir a oposição conservadora no Parlamento. Se Aécio não serve, quem, então, há de servir? A solução, para os conservadores, pode estar no Rio de Janeiro.
Criado nas hostes brizolistas, César Maia (DEM-RJ) é mais um daqueles típicos casos em que a criatura acaba sempre se voltando contra o seu criador. Sua trajetória política teve início à sombra do caudilho gaúcho, mas, não demorou a alçar vôo próprio; nem que, para isso, fosse preciso dar uma guinada de 180º em suas concepções políticas. O social-democrata, adepto do socialismo moreno, deu lugar ao conservador mais reacionário.
César Maia é candidato ao Senado pelo estado do Rio de Janeiro. E as pesquisas o colocam em boas condições de se eleger – a mais recente, do Datafolha, lhe dá 33%, em situação de empate técnico com o senador e candidato à reeleição Marcelo Crivela.
O demo carioca, depois de três mandatos à frente da prefeitura do Rio de Janeiro, tornou-se um obcecado por pesquisas eleitorais e é dele a mais arguta análise sobre o recente levantamento feito pelo Datafolha.
Maia “joga a toalha” e, em seu ex-Blog na internet, afirma que a vantagem de Dilma Rousseff “é fato e não se pode e nem se deve contestar”. O ex-prefeito carioca admite que, neste momento, para José Serra, o mais importante é perseguir o segundo turno, hipótese que a cada dia se revela mais distante. E para isso, sugere uma aliança “não escrita” com a candidata do Partido Verde, Marina Silva. Talvez a senadora acreana, comprometida até a medula com o limitado discurso ecológico, não contasse com esta possibilidade quando decidiu lançar-se na aventura de tentar ser presidente da República.
O ex-prefeito do DEM propõe induzir o voto daqueles que não querem nem Serra e nem Dilma para Marina Silva. Em outras palavras, prega o voto útil para, em sua opinião, assegurar a realização de um segundo turno, onde o jogo é zerado e os dois mais bem votados partem em condições de igualdade. Esta manobra, embora por outros meios, já foi experimentada na eleição anterior e o resultado é bem conhecido: o então candidato Geraldo Alckmin (PSDB) conseguiu a proeza de ter, no segundo turno, menos votos do que teve no primeiro.
A análise que Cesar Maia faz dos números do Datafolha também fornece pistas de como será sua atuação no Senado Federal, caso seja eleito em outubro. Ele lamenta o fato de a equipe de José Serra não ter acompanhado mais atentamente as eleições chilenas. “Com Michele Bachelet, ex-presidenta do Chile, mais popular do que Lula, Sebastian Piñera, candidato da oposição conservadora, foi corajoso e propôs como mote, foco e slogan de campanha, a mudança”, afirma Maia.
Transpor uma realidade de um determinado local para outro, na expectativa de ver reproduzido ali os mesmo resultados, é um exercício não muito recomendável. A vitória de Sebastian Piñera foi vista com alvíssaras por muita gente da oposição ao presidente Lula, porém, as comparações não tiveram fôlego por um único motivo: a situação chilena estava dividida e fragmentada, ao passo que, no Brasil, ela só tem uma candidata.
César Maia também faz críticas veladas à estratégia adotada por José Serra. Segundo ele, ao invés de apostar no “tudo bem, mas vamos fazer um pouco mais”, o tucano deveria, a exemplo do oposicionista chileno, ter um pouco mais de coragem e insistir na mudança. Estes são pequenos, porém, consistentes sinais da atuação do futuro senador César Maia, o líder que a oposição está procurando.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
O ensino técnico em São Paulo
O ensino técnico profissionalizante de nível médio é a vedete nesta campanha eleitoral. Todos os candidatos prometem ampliar investimentos e construir mais escolas desta natureza no estado de São Paulo. A excessiva especialização que estes cursos proporcionam não atende mais as necessidades do mercado de trabalho. Mais do que técnicos extremamente especializados, as empresas querem também um trabalhador com ampla visão de mundo, capaz de entender o empreendimento em sua totalidade e atuar nos diferentes setores da organização.
Esta excessiva especialização é consequência do Decreto 2.208, assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1997. No ano anterior, 1996, o Congresso Nacional aprovou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e desobrigou a vinculação da educação profissional ao ensino médio. Com o decreto de FHC ocorreu a fragmentação da educação técnica integrada e a redução da oferta de vagas nesse nível de ensino.
Esta fragmentação é ruim para a formação do trabalhador e para o país, pois reduz os anos de escolaridade. E o fruto desta baixa escolaridade é o trabalho precário, a sub-remuneração, as migrações, que não trazem benefícios para ninguém.
Em 2004, apesar das pressões de setores ligadas à educação privada no Congresso Nacional, foi aprovado o Decreto 5.154, que revogou o 2.208. O ensino técnico voltou a ser vinculado à educação básica, foi assegurado o cumprimento da formação geral e da preparação técnica, com ampliação da carga horária do curso. O decreto do presidente Lula resgatou a integração, porém, de maneira opcional. E nem todos os estados aderiram.
São Paulo não aderiu e, aqui, a rede estadual continuou com dois conteúdos separados e dupla jornada escolar: num período o aluno cursa o ensino médio, e no outro, o ensino técnico, que dura no máximo dois ou três semestres, dependendo do curso escolhido. Quando havia a integração entre os ensinos técnico e o médio, o conteúdo profissionalizante era desenvolvido ao longo dos três anos de curso, e solidificado junto com os conteúdos de Português, Matemática, Física, Biologia e Química; e enriquecido com Literatura, Artes e Línguas.
Desta maneira, o curso proporcionava envolvimento do aluno, tornando mais completa a sua formação; dando-lhe, enfim, a tal visão de mundo que as empresas tanto buscam. Atualmente, com dois ou três semestres no máximo, o conteúdo é reduzido, o tempo de absorção é muito menor, e é muito mais difícil os alunos se envolverem no cotidiano na escola.
Esta excessiva especialização é consequência do Decreto 2.208, assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1997. No ano anterior, 1996, o Congresso Nacional aprovou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e desobrigou a vinculação da educação profissional ao ensino médio. Com o decreto de FHC ocorreu a fragmentação da educação técnica integrada e a redução da oferta de vagas nesse nível de ensino.
Esta fragmentação é ruim para a formação do trabalhador e para o país, pois reduz os anos de escolaridade. E o fruto desta baixa escolaridade é o trabalho precário, a sub-remuneração, as migrações, que não trazem benefícios para ninguém.
Em 2004, apesar das pressões de setores ligadas à educação privada no Congresso Nacional, foi aprovado o Decreto 5.154, que revogou o 2.208. O ensino técnico voltou a ser vinculado à educação básica, foi assegurado o cumprimento da formação geral e da preparação técnica, com ampliação da carga horária do curso. O decreto do presidente Lula resgatou a integração, porém, de maneira opcional. E nem todos os estados aderiram.
São Paulo não aderiu e, aqui, a rede estadual continuou com dois conteúdos separados e dupla jornada escolar: num período o aluno cursa o ensino médio, e no outro, o ensino técnico, que dura no máximo dois ou três semestres, dependendo do curso escolhido. Quando havia a integração entre os ensinos técnico e o médio, o conteúdo profissionalizante era desenvolvido ao longo dos três anos de curso, e solidificado junto com os conteúdos de Português, Matemática, Física, Biologia e Química; e enriquecido com Literatura, Artes e Línguas.
Desta maneira, o curso proporcionava envolvimento do aluno, tornando mais completa a sua formação; dando-lhe, enfim, a tal visão de mundo que as empresas tanto buscam. Atualmente, com dois ou três semestres no máximo, o conteúdo é reduzido, o tempo de absorção é muito menor, e é muito mais difícil os alunos se envolverem no cotidiano na escola.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O que faz a falta de memória
O período eleitoral é pródigo em histórias de partidos políticos que fazem uso da velha máxima, segundo a qual os brasileiros não têm memória e não cultuam sua história. Posicionamentos considerados equivocados se transformam, da noite para o dia, em ações “virtuosas que só visam o bem estas das pessoas”. Useiro e vezeiro neste tipo de comportamento, o partido Democratas (DEM) é o autor principal em mais uma história desse tipo. A bola da vez é a posição do partido em relação do Programa Universidade para Todos (Prouni).
Lançado em 2004 pelo governo federal, o Programa Universidade para Todos (Prouni) criava condições de acesso ao ensino superior para jovens carentes. Às universidades privadas, aderentes ao programa, o programa propunha isenção de impostos. O principal objetivo do Prouni era, através de bolsas de estudos integrais ou parciais, permitir que jovens provenientes de famílias de baixa renda pudessem cursar uma faculdade.
A isenção de impostos motivou a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino e o Partido da Frente Liberal (PFL), antigo nome do DEM, a ingressarem com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN), que recebeu o número de 3330, no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o Prouni. Um programa que beneficiava também os estabelecimentos de ensino questionado pela sua própria entidade representativa. Surpreendente!
A ADIN DEM-Confeden ainda não foi julgada pelo STF, entretanto, provocado pela candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência da República, Dilma Rousseff, que o acusou de querer barrar o programa, o Democratas, agora, reconhece o Prouni como “importante e necessário” parra a educação no Brasil. No seu lançamento, em 2004, não era. Mas, como precisa dos votos dos pobres – os maiores beneficiados pelo programa –, para não serem varridos do mapa político, os democratas dizem em sua propaganda eleitoral que são favoráveis ao Prouni.
Esta mudança radical de posição e comportamento só se explica pela falta de memória dos brasileiros. Apesar de, em períodos eleitores, todos dizerem que escolhem suas opções políticos após rigorosa análise do passado dos candidatos, é fato que mesmo com tanta observação os eleitores ainda escolhem aqueles que lhes apunhalam pelas costas no Parlamento.
Lançado em 2004 pelo governo federal, o Programa Universidade para Todos (Prouni) criava condições de acesso ao ensino superior para jovens carentes. Às universidades privadas, aderentes ao programa, o programa propunha isenção de impostos. O principal objetivo do Prouni era, através de bolsas de estudos integrais ou parciais, permitir que jovens provenientes de famílias de baixa renda pudessem cursar uma faculdade.
A isenção de impostos motivou a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino e o Partido da Frente Liberal (PFL), antigo nome do DEM, a ingressarem com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN), que recebeu o número de 3330, no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o Prouni. Um programa que beneficiava também os estabelecimentos de ensino questionado pela sua própria entidade representativa. Surpreendente!
A ADIN DEM-Confeden ainda não foi julgada pelo STF, entretanto, provocado pela candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência da República, Dilma Rousseff, que o acusou de querer barrar o programa, o Democratas, agora, reconhece o Prouni como “importante e necessário” parra a educação no Brasil. No seu lançamento, em 2004, não era. Mas, como precisa dos votos dos pobres – os maiores beneficiados pelo programa –, para não serem varridos do mapa político, os democratas dizem em sua propaganda eleitoral que são favoráveis ao Prouni.
Esta mudança radical de posição e comportamento só se explica pela falta de memória dos brasileiros. Apesar de, em períodos eleitores, todos dizerem que escolhem suas opções políticos após rigorosa análise do passado dos candidatos, é fato que mesmo com tanta observação os eleitores ainda escolhem aqueles que lhes apunhalam pelas costas no Parlamento.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Intolerância religiosa é crime
Para os seguidores da umbanda e do candomblé, é bom repetir, o terreiro é um templo sagrado. Ninguém, de nenhuma religião, gostaria que tal violência fosse cometida contra seu próprio templo. Quem discrimina assim o seu semelhante comete, além de intolerância religiosa, outro crime, chamado racismo. Racismo é crime porque assim diz a lei.
Quando foram arrancados de sua terra natal, jogados em navios negreiros e escravizados no Brasil, mulheres e homens africanos perderam quase tudo. Mas resistiram, mantendo sua religião, sua fé em Olorum (o Criador) e em outras divindades. Perderam quase tudo, mas não suas raízes, firmemente fincadas na ancestralidade. Além de território sagrado, os terreiros de umbanda e candomblé são, portanto, locais de resistência e preservação cultural, guardiães da memória de um povo.
Mas, para aqueles que discriminam e desrespeitam uma religiosidade simplesmente por ser diferente da sua, parece difícil entender essa verdade...
A propósito, conta uma tradição oral de matriz africana que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Assim, tudo que estava no Orun se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da verdade, que ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê.
Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito, ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia, inadvertidamente, perdendo o controle do movimento ritmado que repetia sem parar, a mão do pilão tocou forte no espelho, que se espatifou pelo mundo. Mahura correu desesperada para se desculpar com Olorum (o Deus Supremo).
Qual não foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado à sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu as desculpas de Mahura com toda a atenção, e declarou que, devido à quebra do espelho, a partir daquele dia não existiria mais uma verdade única.
E concluiu Olorum: “De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho em qualquer parte do mundo já pode saber que está encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho espelha sempre a imagem do lugar onde ele se encontra”.
Portanto, para seguirmos a vontade do Criador, é preciso, antes de tudo, aceitar que somos todos iguais, apesar de nossas diferenças. E que a Verdade não pertence a ninguém. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós.
Quando foram arrancados de sua terra natal, jogados em navios negreiros e escravizados no Brasil, mulheres e homens africanos perderam quase tudo. Mas resistiram, mantendo sua religião, sua fé em Olorum (o Criador) e em outras divindades. Perderam quase tudo, mas não suas raízes, firmemente fincadas na ancestralidade. Além de território sagrado, os terreiros de umbanda e candomblé são, portanto, locais de resistência e preservação cultural, guardiães da memória de um povo.
Mas, para aqueles que discriminam e desrespeitam uma religiosidade simplesmente por ser diferente da sua, parece difícil entender essa verdade...
A propósito, conta uma tradição oral de matriz africana que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Assim, tudo que estava no Orun se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da verdade, que ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê.
Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito, ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia, inadvertidamente, perdendo o controle do movimento ritmado que repetia sem parar, a mão do pilão tocou forte no espelho, que se espatifou pelo mundo. Mahura correu desesperada para se desculpar com Olorum (o Deus Supremo).
Qual não foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado à sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu as desculpas de Mahura com toda a atenção, e declarou que, devido à quebra do espelho, a partir daquele dia não existiria mais uma verdade única.
E concluiu Olorum: “De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho em qualquer parte do mundo já pode saber que está encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho espelha sempre a imagem do lugar onde ele se encontra”.
Portanto, para seguirmos a vontade do Criador, é preciso, antes de tudo, aceitar que somos todos iguais, apesar de nossas diferenças. E que a Verdade não pertence a ninguém. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós.
Jornalismo de resistência
Por Luiz Egypto, do Observatório da Imprensa
Depois de três meses sem receber salários nem benefícios, com sua empresa editora sob intervenção da justiça trabalhista e enfrentando o jogo pesado dos proprietários do negócio, os jornalistas do jornal Crítica de la Argentina ainda conseguem manter forças para resistir.
O diário começou a circular em março de 2008, e logo demarcou um novo referencial na cobertura dos assuntos argentinos. Mal comparando, estava mais próximo da ousadia criativa de um Libération que da consistência sisuda de um Le Monde.
A independência editorial de Crítica, exercida num ambiente contaminado pelo crescente esgarçamento das relações entre o governo federal e a mídia crítica, logo cobrou o seu preço. A publicidade oficial minguou, a discriminação na dotação das verbas de propaganda ficou cada vez mais evidente, a empresa editora de Crítica foi vendida a um empresário espanhol associado a um argentino, e o caldo definitivamente entornou em maio último, quando o jornal interrompeu a circulação diária e tirou do ar o seu site.
De fato e de direito
Os jornalistas, contudo, não deixaram barato. Mantiveram-se mobilizados, exigiram – e conseguiram – o pagamento dos atrasados que se acumulavam desde outubro do ano passado, foram à Justiça reivindicar seus direitos trabalhistas, promoveram manifestações de rua e, no entremeio, ocuparam a redação da Calle Maipu 271, na região central da capital argentina.
Mais do que isso: com o apoio de parlamentares de oposição, de sindicatos e entidades não vinculados ao oficialismo kirchenista, colocaram novamente o jornal na rua, agora sem periodicidade definida. Na segunda-feira (19/7), começou a circular a terceira edição de resistência, de 40 páginas, formato berliner, com cinco mil exemplares de tiragem. Pouco para a média diária de dez mil cópias que o jornal vendeu em 2009, mas ainda assim um ato carregado de profundo significado simbólico.
Na primeira página, o logotipo modificado: em vez de Crítica de la Argentina aparece Crítica de los Trabajadores. Não há preço de capa, mas o aviso de "contribución solidaria". No miolo, anúncios bancados por dezesseis sindicatos, oito organizações não-governamentais, dez políticos ou blocos parlamentares e dois bancos.
A edição oferece um cardápio diversificado de assuntos. A matéria principal trata da recente aprovação pelo Senado argentino da legislação sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo – o primeiro país da América Latina a reconhecer esse direito. De quebra, muita reportagem, entrevistas e um perfil demolidor de Carlos Mateu, atual presidente da empresa Papel 2.0, controladora de direito do Crítica, um negociador duro com quem os funcionários do jornal estão em guerra aberta.
Papel 2.0 é a dona de direito, mas, de fato, são os jornalistas que estão no comando de Crítica. Todos envolvidos em uma encarniçada luta política enquanto fazem o que melhor sabem fazer: jornalismo.
Depois de três meses sem receber salários nem benefícios, com sua empresa editora sob intervenção da justiça trabalhista e enfrentando o jogo pesado dos proprietários do negócio, os jornalistas do jornal Crítica de la Argentina ainda conseguem manter forças para resistir.
O diário começou a circular em março de 2008, e logo demarcou um novo referencial na cobertura dos assuntos argentinos. Mal comparando, estava mais próximo da ousadia criativa de um Libération que da consistência sisuda de um Le Monde.
A independência editorial de Crítica, exercida num ambiente contaminado pelo crescente esgarçamento das relações entre o governo federal e a mídia crítica, logo cobrou o seu preço. A publicidade oficial minguou, a discriminação na dotação das verbas de propaganda ficou cada vez mais evidente, a empresa editora de Crítica foi vendida a um empresário espanhol associado a um argentino, e o caldo definitivamente entornou em maio último, quando o jornal interrompeu a circulação diária e tirou do ar o seu site.
De fato e de direito
Os jornalistas, contudo, não deixaram barato. Mantiveram-se mobilizados, exigiram – e conseguiram – o pagamento dos atrasados que se acumulavam desde outubro do ano passado, foram à Justiça reivindicar seus direitos trabalhistas, promoveram manifestações de rua e, no entremeio, ocuparam a redação da Calle Maipu 271, na região central da capital argentina.
Mais do que isso: com o apoio de parlamentares de oposição, de sindicatos e entidades não vinculados ao oficialismo kirchenista, colocaram novamente o jornal na rua, agora sem periodicidade definida. Na segunda-feira (19/7), começou a circular a terceira edição de resistência, de 40 páginas, formato berliner, com cinco mil exemplares de tiragem. Pouco para a média diária de dez mil cópias que o jornal vendeu em 2009, mas ainda assim um ato carregado de profundo significado simbólico.
Na primeira página, o logotipo modificado: em vez de Crítica de la Argentina aparece Crítica de los Trabajadores. Não há preço de capa, mas o aviso de "contribución solidaria". No miolo, anúncios bancados por dezesseis sindicatos, oito organizações não-governamentais, dez políticos ou blocos parlamentares e dois bancos.
A edição oferece um cardápio diversificado de assuntos. A matéria principal trata da recente aprovação pelo Senado argentino da legislação sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo – o primeiro país da América Latina a reconhecer esse direito. De quebra, muita reportagem, entrevistas e um perfil demolidor de Carlos Mateu, atual presidente da empresa Papel 2.0, controladora de direito do Crítica, um negociador duro com quem os funcionários do jornal estão em guerra aberta.
Papel 2.0 é a dona de direito, mas, de fato, são os jornalistas que estão no comando de Crítica. Todos envolvidos em uma encarniçada luta política enquanto fazem o que melhor sabem fazer: jornalismo.
domingo, 25 de julho de 2010
Brizola Neto: Datafolha precisa de auditoria
Por Brizola Neto, no Tijolaço
Bem , depois de me desintoxicar um pouco deste mundo de manipulação e propaganda, acho que é possível, de maneira bem calma e racional, mostrar a vocês como o Datafolha perdeu qualquer compromisso com a ciência estatística e passou a funcionar com uma arrogância que não se sustenta ao menor dos exames que se faça sobre os resultados que apresenta.
A primeira coisa que salta aos olhos é o problema gerado pela definição da área de abrangência e, por consequencia, da amostra. Ao contrário do que vinha fazendo nas últimas pesquisas, o Datafolha conjugou pesquisas estaduais e uma pesquisa nacional.
O resultado é um monstrengo, uma verdadeira barbaridade estatística. E as provas estão todas no site do TSE ao alcance de qualquer pessoa. E do próprio Tribunal e do Ministério Público Eleitoral.
Vejamos a mecânica da monstrengo produzido pelo Datafolha.
Dia 16 de julho, o Datafolha (já usando esta razão social e não mais Banco de Dados São Paulo, como usava antes) registrou, sob o número 19.890/ 2010, uma pesquisa nacional de intenção para presidente. Nela, ao relatar a metodologia, o instituto abandonou os critérios tradicionais de distribuição da pouplação brasileira e “expandiu” as amostras dois oito estados.
No próprio registro há a explicação: “Nessa amostra, os tamanhos dos estratos foram desproporcionalizados para permitir detalhamento de algumas unidades da federação (UF´s) e suas capitais. Nos resultados finais, as corretas proporções serão restabelecidas através de ponderação. A amostra nos estados em que não houve expansão foi desenhada para um total de 2500 questionários.
E quantos somavam os “estratos desproporcionalizados”? Está lá: As UF´s onde houve expansão da amostra foram: SP-2040 entrevistas (1080 na capital), RJ-1240 entrevistas (650 na capital), MG-1250 entrevistas (400 na capital) , RS-1190 entrevistas (400 na capital), PR-1200 entrevistas (400 na capital), DF-690 entrevistas, BA-1060 entrevistas (400 na capital), PE-1080 entrevistas(400 na capital). A soma, portanto dá 9750 entrevistas, de um total de 10.730.
Logo, sobraram para todos os 19 demais estados brasileiros 980 entrevistas.
Qualquer estudante de estatística sabe que você não pode misturar critérios de amostragem para partes do mesmo universo e, no final, “ponderar” pelo peso de cada uma destes segmentos no total. Da mesma forma que não se pode pegar uma parte de uma amostra nacional e dizer que, no Estado X, o resultado é Y.
O resultado será viciado pela base amostral distorcida.
Mas o Datafolha não parou aí. Esta pesquisa “nacional” (protocolo 19.890/2010) foi registrada tendo como contratantes a Folha e a Globo, com o valor de R$ 194 mil. Cada uma dos ” estratos desproporcionalizados” foi registrado, no dia 19 último, como uma pesquisa “separada”. Veja:
Protocolo 20158/2010 - Paraná, 1.200 entrevistas, contratada pela Empresa Folha da Manhã S/A. e Sociedade Rádio Emissora Paranaense S/A. por R$ 76 mil;
Protocolo 20125/2010 - Distrito Federal, 690 entrevistas, contratada pela Empresa Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 70.900;
Protocolo 20141/2010 - Rio Grande do Sul , 1.190 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e RBS – Zero Hora Editora Jornalística S/A por R$ 68 mil;
Protocolo 20124/2010 - Bahia , 1.060 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. por R$ 80.258;
Protocolo 20164/2010 - São Paulo , 2.040 entrevistas, contratada pela Empresa Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 74.100 (mais que o dobro por entrevista que na Bahia).
Protocolo 20140/2010 - Pernambuco , 1.080 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 65 mil;
Protocolo 20132/2010 - Minas Gerais , 1.250 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 80 mil;
Protocolo 20161/2010 - Minas Gerais , 1.240 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 68 mil.
Somando todos os valores declarados de contratação chega-se à bagatela de R$ 776.258 reais. Interessante, não?
Mais interessante ainda é o fato de que, nos protocolos listados acima, que você pode consultar na página do TSE , preenchendo o número correspondente, o Datafolha nem sequer se preocupou em depositar, como manda a lei, o questionário específico. Fez como o Serra, que mandou entregar no Tribunal ,como programa, o discurso que fez na convenção. Colocou uma cópia do questionário “nacional”, onde não há perguntas sobre candidatos a governador ou senador.
O Datafolha trata as exigências legais como um “detalhezinho” sem importância, “vende” a mesma pesquisa em nove contratos diferentes – seria bom ver os recibos destes pagamentos, não? – e deposita questionários imcompletos, aos lotes.
Portanto, a análise da pesquisa Datafolha não deve ser estatística. Deve ser jurídica. O douto Ministério Público Eleitoral, que não aceita intimidações de quem quer que seja, bem que poderia abrir um procedimento para apurar todos os fatos que, com detalhes, estão narrados acima.
Bem , depois de me desintoxicar um pouco deste mundo de manipulação e propaganda, acho que é possível, de maneira bem calma e racional, mostrar a vocês como o Datafolha perdeu qualquer compromisso com a ciência estatística e passou a funcionar com uma arrogância que não se sustenta ao menor dos exames que se faça sobre os resultados que apresenta.
A primeira coisa que salta aos olhos é o problema gerado pela definição da área de abrangência e, por consequencia, da amostra. Ao contrário do que vinha fazendo nas últimas pesquisas, o Datafolha conjugou pesquisas estaduais e uma pesquisa nacional.
O resultado é um monstrengo, uma verdadeira barbaridade estatística. E as provas estão todas no site do TSE ao alcance de qualquer pessoa. E do próprio Tribunal e do Ministério Público Eleitoral.
Vejamos a mecânica da monstrengo produzido pelo Datafolha.
Dia 16 de julho, o Datafolha (já usando esta razão social e não mais Banco de Dados São Paulo, como usava antes) registrou, sob o número 19.890/ 2010, uma pesquisa nacional de intenção para presidente. Nela, ao relatar a metodologia, o instituto abandonou os critérios tradicionais de distribuição da pouplação brasileira e “expandiu” as amostras dois oito estados.
No próprio registro há a explicação: “Nessa amostra, os tamanhos dos estratos foram desproporcionalizados para permitir detalhamento de algumas unidades da federação (UF´s) e suas capitais. Nos resultados finais, as corretas proporções serão restabelecidas através de ponderação. A amostra nos estados em que não houve expansão foi desenhada para um total de 2500 questionários.
E quantos somavam os “estratos desproporcionalizados”? Está lá: As UF´s onde houve expansão da amostra foram: SP-2040 entrevistas (1080 na capital), RJ-1240 entrevistas (650 na capital), MG-1250 entrevistas (400 na capital) , RS-1190 entrevistas (400 na capital), PR-1200 entrevistas (400 na capital), DF-690 entrevistas, BA-1060 entrevistas (400 na capital), PE-1080 entrevistas(400 na capital). A soma, portanto dá 9750 entrevistas, de um total de 10.730.
Logo, sobraram para todos os 19 demais estados brasileiros 980 entrevistas.
Qualquer estudante de estatística sabe que você não pode misturar critérios de amostragem para partes do mesmo universo e, no final, “ponderar” pelo peso de cada uma destes segmentos no total. Da mesma forma que não se pode pegar uma parte de uma amostra nacional e dizer que, no Estado X, o resultado é Y.
O resultado será viciado pela base amostral distorcida.
Mas o Datafolha não parou aí. Esta pesquisa “nacional” (protocolo 19.890/2010) foi registrada tendo como contratantes a Folha e a Globo, com o valor de R$ 194 mil. Cada uma dos ” estratos desproporcionalizados” foi registrado, no dia 19 último, como uma pesquisa “separada”. Veja:
Protocolo 20158/2010 - Paraná, 1.200 entrevistas, contratada pela Empresa Folha da Manhã S/A. e Sociedade Rádio Emissora Paranaense S/A. por R$ 76 mil;
Protocolo 20125/2010 - Distrito Federal, 690 entrevistas, contratada pela Empresa Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 70.900;
Protocolo 20141/2010 - Rio Grande do Sul , 1.190 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e RBS – Zero Hora Editora Jornalística S/A por R$ 68 mil;
Protocolo 20124/2010 - Bahia , 1.060 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. por R$ 80.258;
Protocolo 20164/2010 - São Paulo , 2.040 entrevistas, contratada pela Empresa Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 74.100 (mais que o dobro por entrevista que na Bahia).
Protocolo 20140/2010 - Pernambuco , 1.080 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 65 mil;
Protocolo 20132/2010 - Minas Gerais , 1.250 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 80 mil;
Protocolo 20161/2010 - Minas Gerais , 1.240 entrevistas, contratada pela Folha da Manhã S/A. e Globo Comunicação e Participações S/A. por R$ 68 mil.
Somando todos os valores declarados de contratação chega-se à bagatela de R$ 776.258 reais. Interessante, não?
Mais interessante ainda é o fato de que, nos protocolos listados acima, que você pode consultar na página do TSE , preenchendo o número correspondente, o Datafolha nem sequer se preocupou em depositar, como manda a lei, o questionário específico. Fez como o Serra, que mandou entregar no Tribunal ,como programa, o discurso que fez na convenção. Colocou uma cópia do questionário “nacional”, onde não há perguntas sobre candidatos a governador ou senador.
O Datafolha trata as exigências legais como um “detalhezinho” sem importância, “vende” a mesma pesquisa em nove contratos diferentes – seria bom ver os recibos destes pagamentos, não? – e deposita questionários imcompletos, aos lotes.
Portanto, a análise da pesquisa Datafolha não deve ser estatística. Deve ser jurídica. O douto Ministério Público Eleitoral, que não aceita intimidações de quem quer que seja, bem que poderia abrir um procedimento para apurar todos os fatos que, com detalhes, estão narrados acima.
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